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Entrevista com Armando Babaioff

Armando Babaioff

AMAIS: Armando, é um prazer te entrevistar. Sabemos que você é um ator multitarefa: novelas, filmes e principalmente, o teatro. Tem preferência por algum?

Mais do que eleger um suporte (televisão, cinema ou teatro), eu fico com o prazer em atuar. Tenho interesse e gosto de contar histórias e gosto de personagens. Tenho interesse por eles, gosto de me comunicar através deles, seja no teatro, no cinema ou na televisão.

AMAIS: Como está sendo a repercussão do seu personagem Ionan na novela “Segundo Sol”? Além de ser policial boa praça, ainda está envolvido na trama de doação de sêmen para o casal Maura (Nanda Costa) e Selma (Carol Fazu). Como está sendo a resposta das pessoas?

Estou vivendo um momento muito feliz na minha profissão, que é quando existe uma empatia muito grande entre o público e o personagem. Na rua, existe uma abordagem quase familiar, quase como que se as pessoas me conhecessem e tivessem a necessidade de aconselhar ou criticar ou elogiar o personagem. Eu recebo todo tipo de resposta (positivas e negativas) e me deixa feliz saber que aquilo que desde o início me propus a fazer tem recebido um destaque na vida das pessoas. Existe uma discussão acerca de todos os assuntos que a novela se propôs a contar com o meu personagem e os núcleos nos quais ele está inserido. Falam dele trair a Doralice, da relação entre esse dois, de como ele e Maura funcionam como um casal, mesmo nesse momento tão conturbado dos dois, falam dele e do excesso de segredos que guarda com relação à família Falcão. É um ser humano, cheio de virtudes e correção, mas justamente por ser humano é passível de erros.

AMAIS: Você fez algum laboratório para viver um policial? No seu ponto de vista, como é ser policial no Brasil?

O elenco todo fez uma preparação antes de a novela começar. Foi um convívio diário no qual a gente foi construindo esses personagens e laços. Isso foi o ponto principal da minha composição. Fiz um trabalho de corpo também pensando na profissão do Ionan, mas meu foco foi o caráter dele, a maneira como ele está inserido naquela família e como se comporta diante dos conflitos. Do meu ponto de vista, é uma profissão muito nobre, arriscada e que merece ser mais valorizada. São homens e mulheres que, muitas vezes, dão à vida pelo seu ofício.

AMAIS: O Ionan vive um relacionamento abusivo com Doralice (Roberta Rodrigues). Você tem recebido comentários sobre outros homens nesta situação?

É um relacionamento bem complicado mesmo. O ciúme da Doralice é uma doença, não é algo sadio. As pessoas comentam comigo muito sobre o personagem, a relação deles, alguns dizem que Doralice não merece Ionan, que ele precisa deixar aquela mulher… Outros mais divididos com a aproximação dele com a Maura, que me falam que ele não deveria trair a mulher. Tem de tudo um pouco. Eu estou muito feliz com a repercussão desse trabalho. É um projeto muito especial.

AMAIS: A peça “Tom na Fazenda”, realizada por você está sendo um enorme sucesso. A peça levanta o debate sobre a homofobia e o conservadorismo. O que você acha desse momento em que o Brasil está vivendo, em que de um lado, os LGBTI+ estão sendo integrados a sociedade e por um outro lado, a corrente do conservadorismo e preconceito só vem crescendo?

O maior problema nosso é que todo o tipo de preconceito no Brasil é velado. Ele é sempre atribuído ao “outro”. As pessoas têm vergonha de se reconhecer como preconceituosas… Porém suas ações demonstram que elas veem no outro um estranho, um perigo em potencial. É necessário conscientizar a população de que o preconceito existe e deve acabar. Porque quando o problema não é reconhecido, ele não é tratado ou então é tratado com muita dificuldade. Realizar uma peça de teatro como “Tom na Fazenda” e encená-la para o grande público acabou se tornando um grito de resistência. Primeiro por se tratar de teatro, uma peça que não tem patrocínio, num momento em que estamos sucateando a cultura e a educação em nosso país e depois pela reflexão que a peça se propõe. Trazer para o palco a discussão um texto como Tom na Fazenda e mostrar a violência como estamos tratando a nós mesmos é uma arma poderosa. Existe uma onda conservadora sim, mas existe também uma onda que vai no sentido contrário, mas a onda conservadora faz mais barulho, destrói o que foi construído com mais facilidade. Vamos lembrar os inúmeros casos de homofobia que aparecem frequentemente no jornal. Vamos pensar nos doentes mentais e em outras diversas minorias hostilizadas e discriminadas. Estranho pensar que, no país que se autoproclama o “país do carnaval”, onde valores como a liberdade e a flexibilização das regras são defendidos, possa haver tanto preconceito. Tanta rigidez de pensamento. Um grande passo para mudar esse quadro é reconhecermos que o preconceito está por toda parte. É nosso dever carregarmos e nos lembrarmos disso a todo instante.

AMAIS: A cultura está sofrendo demais em nosso país ultimamente. Primeiro tentaram extinguir o ministério da cultura, depois vieram os cortes, agora o Museu Nacional acabou. Você se preocupa com o rumo que a cultura em nosso país está tomando?

Muito. Me entristece muito, mas me assusta mais ainda. Foi muito simbólico o que aconteceu com o Museu Nacional. Acaba servindo como um marco do absurdo no qual estamos inseridos e, o mais louco, a cegueira pela qual passamos. Como podemos tratar o nosso passado dessa forma? Como não temos olhos para o futuro deste país? Por que continua a ser tão difícil fazer passar esta ideia simples de que o investimento na cultura fica muito mais barato do que não investir? A cultura é cara? Experimentem a ignorância. Investir em educação é caro? Experimentem a ignorância. Um dos muitos exercícios que podemos fazer é imaginar a França sem o Louvre ou até mesmo imaginar a quantidade de brasileiros que viajam até a França só para visitar o Louvre. O Museu do Prado na Espanha? Não consigo entender, por exemplo, a não preservação das nossas raízes indígenas e africanas. Alguém consegue conceber a ideia de um mundo sem estes lugares de formação e preservação da cultura? Se o objetivo é econômico, é sair de uma crise financeira, fica um alerta: sem investimento e consequentemente sem um sistema de educação de qualidade nenhum país tem capacidade de se desenvolver plenamente e se tornar uma potência econômica e social. Só nos resta o obscurantismo e as trevas.

AMAIS: Em qual momento da sua vida você decidiu ser ator?

Quando subi num palco pela primeira vez aos 11 anos de idade. Numa escola pública em Jacarepaguá, chamada Pio X. Era uma matéria obrigatória. Nunca mais fiz outra coisa desde então.

Rapidinhas:

Um refúgio? Sul da Bahia.

Uma comida? Peixe.

Uma música? Mistério do Planeta, Novos Baianos

Um filme? Feios, sujos e malvados, do Ettore Scola

Hannalee Motta

hanna@optimus360.com

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